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Mais do que pagar o rancho do mês, o leite é uma questão de identidade
Publicado em 10/10/2017
O casal Selanir e Albano da Costa, de Colinas, sonha com dias melhores no campo

“Tenho uma relação de carinho e de amizade com as vaquinhas, elas não têm culpa da atual situação ruim. Eu gosto de tirar leite, não poderia ver o estábulo vazio. Nasci e me criei nessa lida, por isso ainda acredito em dias melhores.” O depoimento carregado de emoção é da produtora Selanir de Souza Costa (38), que ao lado do marido Albano Roberto da Costa (51), o “Juquinha”, produzem leite e frango de corte para a Cooperativa Languiru na propriedade da família, em Linha Ano Bom Baixo, município de Colinas.

Terreno inclinado e outras tantas pedras no caminho não tiram a esperança de dias melhores para os produtores de leite (Fotos: Leandro Augusto Hamester)

Como o próprio nome da cidade sugere, a propriedade com cerca de 20 hectares está localizada em meio às colinas, com pouca área em terra plana, onde plantam milho para silagem. No rebanho, 12 vacas em lactação e cinco secas, a maioria da raça Jersey, que juntas produzem, em média, cerca de 80 litros de leite por dia. No aviário, capacidade para alojar até 19 mil machos ou 23 mil fêmeas.

As atividades na propriedade são “tocadas” pelo casal, que possui uma filha, Ana Carolina (6). Ainda reside no local a mãe de Juquinha, dona Odila (77). A propriedade foi herdada do pai de Albano, o seu José Auri, mais conhecido por todos como “Juca do Morro”, falecido há cerca de um ano. “Nunca saí daqui, nasci e me criei aqui. Eu gosto de lidar no campo, não me adaptaria na cidade. A única mudança talvez seria para uma propriedade com área mais plana, mas jamais sairia da zona rural. Se hoje fosse iniciar minha vida profissional, seria novamente produtor rural”, revela Juquinha.

Selanir de Souza Costa e o marido Albano Roberto da Costa, o “Juquinha”, produzem leite e frango de corte para a Cooperativa Languiru na propriedade da família, em Linha Ano Bom Baixo, município de Colinas

 

Mercado conturbado

 

A cadeia produtiva do leite vem sofrendo com os altos e baixos dos preços pagos aos produtores rurais, desestimulando muitas famílias que produzem em 173,7 mil propriedades rurais, distribuídas em 491 municípios gaúchos, conforme consta no Relatório Socioeconômico da Cadeia Produtiva do Leite no Rio Grande do Sul 2017, elaborado pelo zootecnista e assistente técnico estadual em bovinocultura de leite da Emater/RS-Ascar, Jaime Ries.

Zootecnista e assistente técnico estadual em bovinocultura de leite da Emater/RS-Ascar, Jaime Ries

O estudo apontou que as principais dificuldades enfrentadas pelos produtores estão baseadas na falta ou deficiência de mão de obra, no descontentamento com o valor recebido pelo litro de leite e na falta de sucessão para a propriedade. Além disso, ainda constam na pesquisa problemas importantes relacionados à reduzida escala de produção e à qualidade do leite, com os produtores enfrentando dificuldades para atender às exigências das indústrias. “Percebe-se uma significativa redução no número de produtores de leite e no rebanho. No Vale do Taquari, por exemplo, nos últimos dois anos, 1.260 pessoas deixaram a atividade, com redução de 5.906 animais, embora a produção de leite tenha evoluído”, apresenta Ries.

Do universo de produtores gaúchos que seguem na atividade, o maior número encontra-se na faixa com até 300 litros/dia (81,9%), dos quais cerca de 13 mil na faixa de volume entre 51 e 100 litros/dia. “A partir dessas informações, pode-se concluir que a grande maioria dos produtores possui reduzida escala de produção, o que pode significar dificuldades para se manter na atividade. Dos produtores que saíram da atividade leiteira no Estado, 70% contavam com até 100 litros/dia”, estratifica Ries.

Presidente da Cooperativa Languiru, Dirceu Bayer

 

Papel das cooperativas

 

Preocupada com a sustentabilidade da pequena propriedade, especialmente dos pequenos produtores de leite com dificuldades para produzir volumes que compensem a captação da matéria-prima, a Cooperativa Languiru e parceiros desenvolvem o Programa de Inclusão Social e Produtiva no Campo, envolvendo pequenos produtores rurais em 21 municípios na sua área de atuação. Lançada oficialmente no mês de maio, a iniciativa tem por objetivo central desenvolver assistência técnica e social que proporcione a continuidade das pequenas propriedades, centrado na viabilidade da atividade leiteira. “É uma demanda que surgiu junto ao quadro de associados da Languiru, estimulando o incremento na produção leiteira e a oferta de outras alternativas produtivas nas propriedades rurais familiares, como a lavoura do milho, por exemplo. Unindo esforços, aproveitando o potencial e as características produtivas regionais, estamos no caminho certo para a sustentabilidade e crescimento das pequenas propriedades. De fato, trata-se de um programa de inclusão social e produtiva”, explica o presidente da Cooperativa Languiru, Dirceu Bayer, destacando que o foco está nas propriedades com produção média entre 80 e 300 litros de leite por dia. “A Indústria de Laticínios da Languiru possui capacidade instalada para industrializar maiores volumes de leite. Com isso, também buscamos a manutenção do quadro social e novos associados. Todo esse trabalho da cooperativa gera empregos, renda e impostos, que são reinvestidos na comunidade local.”

Apesar das dificuldades, família se diz feliz em viver no campo

Conforme consta no relatório apresentado pela Emater/RS-Ascar, a capacidade instalada de industrialização de leite no Estado é estimada em 18,7 milhões de litros/dia, quando o volume industrializado atualmente atinge apenas 11,3 milhões de litros/dia, ociosidade que se aproxima aos 40%.

 

Felicidade e esperança, apesar de tudo

 

Nesse contexto, a família Costa, de Colinas, agarra-se à possibilidade de incrementar os volumes produtivos do seu rebanho. Eles participam do Programa de Inclusão Social e Produtiva no Campo por justamente acreditarem nesse potencial. “O leite sofre com altos e baixos, e muitas vezes desanimamos, mas os produtores devem estar preparados para os bons e maus momentos. A lida diária é ‘puxada’, não temos feriado ou fim de semana. Sabemos do valor dos produtores rurais, responsáveis por alimentar o mundo, mas muitas vezes não somos devidamente valorizados. Mesmo com tudo isso, eu acredito que é possível sonhar com dias melhores no campo. Não temos muito conhecimento do mundo fora daqui, mas somos felizes desse jeito”, avalia o casal.

No rebanho, 12 vacas em lactação e cinco secas, que juntas produzem, em média, cerca de 80 litros de leite por dia

Depois de participarem de tarde de campo promovida pelo Programa em Colinas, Juquinha e Selanir viram essa possibilidade de evolução com o melhor aproveitamento de pastagens para a alimentação do rebanho. “É possível reduzir o custo de produção e melhorar o rendimento diário por animal. Inclusive, já passamos de 60 litros/dia para cerca de 80 litros/dia, reflexo do melhor aproveitamento de pastagens, com menor custo comparado ao uso de silagem e ração”, revela Juquinha.

“O Programa da Languiru e da Emater nos motiva. Estamos cuidando bem das vaquinhas, e elas estão retribuindo com maior e melhor produção. Investimos no galpão, fizemos uma boa arrumação e, agora, com tudo em dia, está melhor de trabalhar, então vamos seguir apostando no leite. A Languiru mostra que não estamos esquecidos aqui, e isso é animador”, comenta Selanir, ao que acrescenta Juquinha: “não tendo este apoio neste momento, estávamos decididos a parar com a produção de leite”, disse, destacando ainda outros benefícios oferecidos pela cooperativa com sede em Teutônia, como a bonificação no pagamento do leite considerando a qualidade da matéria-prima. “A Languiru tenta ajudar e valoriza o seu associado. Oferece assistência técnica e até descontos nas compras. O ranchinho do mês e a gasolina, tudo é o leite que paga, e é isso que me satisfaz. Vou no supermercado da cooperativa, pego o que preciso nas prateleiras sem me preocupar com a conta no caixa, pois a Languiru me permite descontar tudo isso na produção. Também passo no posto de combustíveis da Languiru, peço para encher o tanque e digo tchau, também o leite paga essa conta. Isso são coisas que nos deixam contentes, por isso seguimos em frente. O nosso empenho reflete no nosso bolso, dá retorno para nós associados e para a cooperativa”, conclui Selanir.

 

 

 

TEXTO – Leandro Augusto Hamester

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